A escola de teatro formou mais de 1500 alunos durante essas 3 décadas
A história da A_Barca começa em 1996 após Adriano Basegio ter sido convidado pela direção do Colégio João XXIII para participar de um evento de transição de etapa. O rito marca a passagem das crianças do 4º para o 5º ano do Ensino Fundamental (EF). O trabalho se estendeu por um semestre, com ele lecionando para as turmas. Ao final do ano foi convidado a dar continuidade nas aulas de teatro no Colégio.
“Nessa época eu dava aula em algumas escolas de educação infantil e numa delas fui professor do filho do Valmir, conhecido como Pulga no João XXIII. Ele me indicou para esse projeto no Colégio, que era coordenado pela professora Rosa Bins Ely”, explica Adriano.
Durante muitos anos A_Barca ministrou aulas no auditório do Colégio, mesmo local das apresentações de final de ano, que eram em formato de Mostra, na qual cada turma se apresentava com um espetáculo, o que evidenciava o trabalho desenvolvido em cada grupo.
Desde 2022, após a pandemia da COVID-19, a A_Barca mudou o formato das apresentações e passou a realizar um único espetáculo de final de ano. Além das famílias dos alunos, a comunidade escolar passou a se envolver e a prestigiar essa nova fase.
“Inicialmente a minha preocupação era com os alunos menores, em como tornar íntimo esse espaço de cena para eles. E nós conseguimos, o primeiro espetáculo foi um sucesso e reverberou nos depoimentos de ex-alunos que agora trazem seus filhos para o teatro. É impressionante o quanto o teatro toca a vida de cada ser”, refletem os professores Adriano e Heloisa Palaoro, a Lolo como é conhecida.
Um desses alunos é o João Guilherme Nerva Figueiredo que trouxe seu filho Darwin para ser aluno do Colégio João XXIII e da escola de teatro A_Barca.
“Fui aluno do Adriano na A_Barca quando tinha 15 anos. Ter feito teatro com ele foi uma experiência incrível e que me ajudou a socializar com diversos grupos e comigo mesmo. O aprendizado mudou a forma com que me relaciono com as pessoas e as coisas no mundo. Foi libertador e consegui compreender melhor meus sentimentos e ir atrás de outras formas de expressão artística. O carinho que tenho pelo trabalho desenvolvido na A_Barca me levou a colocar o Darwin no João XXIII e na A_Barca. Tenho certeza de que será uma grande experiência para ele, assim como foi para mim. E as primeiras impressões dele já são as melhores. É emocionante perceber nele o que eu vivi”, relata João.
São nesses reencontros com ex-alunos, permeados de relatos emocionantes, que Adriano se reencontra com o Adriano de 30 anos atrás. Revê-los no teatro, cinema, televisão e nos bastidores, não necessariamente atuando em frente às telas, é gratificante para ele.
“É emocionante quando vou fazer algum trabalho e encontro com eles. Ali eu percebo a importância que o teatro teve na vida de cada um e que continua até hoje. Isso é o que me motiva a continuar entrando em sala de aula”, ressalta o professor.
Nesses 30 anos da Escola, passaram mais de 1500 alunos, da Educação Infantil ao Ensino Médio. Somente nesse ano são aproximadamente 80 alunos que aprenderão os princípios básicos do fazer teatro, a parte técnica e a criação de personagens. De acordo com Adriano, a principal preocupação é saber se faz sentido para o aluno estar ali e se ele quer estar nesse lugar de aprendizado, porque o teatro está atrelado à educação no João XXIII.
“A preocupação não está em saber quantos textos cada um leu ou decorou. É respeitar o tempo de cada um. É saber se esse aluno tem interesse em se apresentar, se isso faz sentido pra ele, se está aproveitando e vivenciando da melhor forma essa experiência. Eles precisam ocupar os espaços e estarem confortáveis, seja na sala de aula ou no palco”, afirma Adriano.
Para ele, as aulas não podem ser burocráticas e devem propiciar um ambiente amplo para que possa emergir uma experiência criativa, dentro da realidade de cada aluno e do momento que vivem, dispostos a se conectarem, se encontrarem e brincarem, para que a partir disso surjam descobertas dentro do imaginário de cada um.
“No teatro, cada um tem liberdade de ser quem é e de ser aquilo que nem desconfia que possa ser. É o lugar de descobertas, onde tu encontra o outro e o outro te encontra, mas acima de tudo o outro é testemunha de onde estás chegando”, diz o professor da A_Barca.
O teatro tem um poder transformador na vida de cada um deles. É o lugar onde a magia, o tempo e o espaço ganham outra dimensão. É o momento em que eles podem se transportar para o futuro, para o passado, para uma floresta, um castelo, uma rua qualquer. A sala de aula se torna um lugar potente, mágico.
“É um espaço onde a tua imaginação te coloca. De estar num ambiente que foi construído pela tua entrega e imaginação, ao mesmo tempo onde tudo é uma grande brincadeira. Os alunos são atravessados por essas vivências que tocam na sensibilidade, na força e em aspectos que só seria possível sentir nesse espaço teatral”, reflete Adriano.
A professora Heloísa complementa dizendo que olhar as individualidades e os potenciais de cada um que está ali tem um papel transformador. Porque muitos deles chegam com traumas, como foi o que aconteceu após a enchente em 2024.
“Nós tivemos alunos que chegaram traumatizados após a enchente. Então, não tem como dar uma aula de teatro sem antes acolher e escutar, justamente porque trabalhamos com os sentimentos nas aulas de teatro”, relata Lolo.
Apesar de todas as adversidades e mudanças, os professores Adriano e Lolo encontraram no João XXIII um espaço onde se sentem à vontade para trabalhar.
“O Colégio e a comunidade escolar entendem a dimensão e a importância do meu trabalho enquanto professor de teatro nesses 30 anos. É uma alegria ter construído essa história dentro do João XXIII. Estar a tanto tempo dentro de um colégio como esse é diferente, nem sei explicar. Mas se estou aqui a tanto tempo é porque deu certo esse casamento. Não se constrói nada sozinho, nem um espetáculo. Sua construção depende de cada um dos alunos, das pessoas nos bastidores e da plateia no teatro e na vida. Seja sorrindo, apoiando ou aplaudindo, terá um poder transformador”, finaliza o professor Adriano.
É uma parceria que deu certo e que conta com o apoio da atual direção pedagógica, composta pela diretora Paula Poli e Fernanda Radajeski, vice-diretora.
“É uma parceria muito importante para o João XXIII. São 30 anos de história juntos, valorizando a cultura na formação dos nossos estudantes. Desde 2023, quando assumi a direção, procuramos estar bem próximos, acompanhando as apresentações, apoiando a organização e fortalecendo essa parceria. Então, parabenizamos a A_Barca por essa trajetória tão significativa com a escola”, afirma Paula Poli.
Para o ano festivo, Adriano está preparando algumas atividades comemorativas que marcam não apenas os 30 anos da A_Barca, mas a continuidade de um projeto que transforma vidas por meio da arte, do encontro e da educação. A primeira delas aconteceu no dia 19 de março, com a apresentação da peça teatral “Baile das Letrinhas, baseada no livro da Deborah Finocchiaro, para as turmas dos Níveis da Educação Infantil até o 4º ano do EF. As próximas atividades serão divulgadas em breve.
Sobre a A_Barca
Fundada pelo Ator, Diretor e Professor de Teatro Adriano Basegio, que desenvolve um trabalho sistemático em Teatro e Educação desde 1991. A Escola apresenta-se como um Veículo de Navegação Artística trafegando em cinco eixos principais:
1º – Teatro e educação – Trabalho desenvolvido exclusivamente no João XXIII em parceria com a professora Heloísa, com foco no teatro educação, desde 1996.
2º – Capacitação e formação profissional – Cursos para atores profissionais e outros profissionais da área do teatro e da dança do Brasil e exterior, mais especificamente em Singapura, onde lecionou por 1 semestre numa escola internacional de teatro, em 2015.
3º – Desenvolvimento pessoal – Cursos para desenvolvimento pessoal e de autoconhecimento, para trabalhar questões de comunicação, de presença e comportamento. Os curso são direcionados aos profissionais de todo o estado.
4º – Comunicação – Workshops, oficinas e cursos dentro do mundo corporativo para gestores e na área da educação, para equipes administrativas e pedagógicas, envolvendo comunicação e expressão. Trabalho realizado em parceria com a psicóloga Jaqueline Mânica.
5º – Produtor e preparador de elenco – Preparação de elencos infantil e adulto para cinema, teatro e televisão.
Por Renata Lages A. Eberhardt
Minibiografia do Prof. Adriano Basegio:
Ator, diretor e professor de teatro e música, licenciado em Artes Cênicas/UFRGS e Escola de Música da OSPA. Fundador da A_Barca – Escola Aberta de Teatro. Foi Cofundador da Cia do Giro e Professor/Diretor do TEPA – Teatro Escola de Porto Alegre. Atuou como professor e coordenador pedagógico em projetos culturais e educativos com crianças, jovens e adultos na periferia de Porto Alegre e Salvador. É professor e coordenador do Projeto Palhafasia, onde aplica a arte do palhaço com pessoas com afasia. Professor, colaborador e aluno da Escola Vale do Ser – Terapias, Ensino e Cultura (RS) desde 1999. No teatro participou de diversos espetáculos nas funções de ator, diretor e músico e no cinema e TV tem participações e premiações como ator, roteirista, preparador e produtor de elenco e diretor musical.
Minibiografia da Profª Heloísa Palaoro:
Professora, orientadora educacional, produtora e atriz, atuando em diversos espetáculos em Porto Alegre e no RS. Como diretora e roteirista do Projeto Cia das Histórias, foi contemplada com o financiamento Fumproarte de 1997. Na televisão atuou no curta Control Z do Projeto Histórias Curtas da RBSTV e apresentou o quadro A Hora do Lanche no Programa Papos e Pratos na TV Bandeirantes durante 3 anos. Há 35 anos ministra aulas de teatro. Recebeu 7 prêmios de Melhor Atriz e 11 de melhor Espetáculo. Como Doula da Morte, participa de trabalhos pedagógicos como o Sarau das Inquietas.
Acompanhe o trabalho da A_Barca no Instagram: https://www.instagram.com/abarca_escoladeteatro/
