Por onde anda…

… o ex-estudante André Passow

O André é pai do Matias e do Lucas, estudantes do João, e proprietário da Magian Cacao, nome formado pelas iniciais da família: Ma de Matias, nome do filho mais velho, Gi de Giovana – sua esposa – An de André e Cacao, de Lucas, filho mais novo, e de cacau chocolate. A fábrica, situada na zona sul de Porto Alegre, existe desde 2016 e nesse ano completa 10 anos levando sabor e adoçando a vida dos apreciadores de um chocolate diferenciado.

A história com o chocolate foi passada por gerações. Seu avô foi funcionário da fábrica de chocolates da Garoto. Seu pai fabricava ovos de chocolate e depois, por muitos anos, trabalhou com a venda e distribuição de chocolates pelo país.

“Eu nasci em 1981 e meus pais moravam, e ainda moram, na zona sul de Porto Alegre. Naquela época meu pai tinha uma fábrica de ovos de chocolate no porão de casa. E o meu avô trabalhou na fábrica de chocolates da Garoto até final da década de 70. Eu me criei no meio dos chocolates e ali começou a minha ligação com esse mundo do cacau.”

Quando seu pai foi trabalhar numa empresa de chocolates do Espírito Santo, costumava levar o André para, desde cedo, aprender e entender o mundo dos negócios. Ele entrava na fábrica, acompanhava a produção e aos poucos ia aprendendo sobre esse universo doce e saboroso.

“Comecei a trabalhar com chocolate bem jovem, tinha 15 anos. Meu pai sempre falava que trabalhar era muito importante e fazia questão de me levar para ensinar como eu tinha que me comportar, que era importante olhar nos olhos do cliente quando se está numa negociação. Depois, em 2007, ele abriu uma fábrica de chocolate e eu era funcionário dele.”

A família tinha casa na Bahia e costumavam viajar de carro, Fiat 147, para lá, nas festas de final de ano. E até hoje o André mantém essa rotina com a família que construiu. Quando viajam, visitam as fazendas de cacau para que seus filhos tenham histórias para contar e também se familiarizem com esse meio, assim como foi com ele.

E a infância do André foi repleta dessas e de outras vivências. Elas iniciaram na Creare, junto com o Vico Crocco. Inclusive, a maioria das crianças que saiam de lá, entravam no Colégio João XXIII. E com ele não foi diferente, entrou no João em 1984, aos 3 anos no Maternal.

Ele menciona que tinha muita dificuldade no aprendizado e sofria muito com isso, porque percebia que seus colegas aprendiam mais rápido que ele.

“Naquela época não se tinha noção e nem ferramentas para se pesquisar e diagnosticar o TDAH. Fui entender depois de adulto, por causa do meu filho, numa consulta com um neurologista, que recomendou a leitura do livro “No mundo da lua”. Quando minha esposa leu, na mesma hora disse: esse livro aqui é tu. E eu li e voltei no tempo. Me enxerguei criança, sofrendo… e me dei conta de tudo que passei e isso me tirou um peso. Eu fui a única criança que não se alfabetizou na 1ª série do 1º grau. Eu simplesmente não aprendia. E o Colégio João XXIII é muito especial para quem tem TDAH.”

O André rodou na 4ª série, mas nunca sofreu bullying. Quando estava na 5ª série, pediu para seu pai levá-lo para conhecer outro colégio e na hora da entrevista não gostou da forma que a pessoa se dirigiu a ele para aplicar o teste. Ali percebeu que aquele lugar não era para ele.

No Maternal o André criou suas primeiras amizades, as quais levou para a vida. Essas conexões existem tanto com os colegas quanto com os professores. E deles guarda boas lembranças. André menciona que tem muito carinho pela professora Irma, de matemática e que encontrava com ela seguidamente no bairro Assunção, onde ambos moram. Ele recorda que ela tinha uma sensibilidade e ótima percepção para saber quais alunos tinham dificuldades no aprendizado. Além dela, ele gostava dos professores Alfredo Amaral e Bido de educação física e as professoras Susi, de matemática, e a Ivone de artes, mãe da ex-estudante Helena Rizzo, que é chefe de cozinha.

“Tenho amigos que conheci no maternal e um deles foi o Kadu Bergenthal. Atualmente velejamos juntos e faço parte da tripulação do barco dele. O Lucas, piloto em Dubai, era meu colega e hoje é meu amigo. Toda vez que ele vem a Porto Alegre a gente se encontra, ele visita a loja e faz um estoque de chocolates antes de retornar a Dubai. E, no Colégio, ainda encontro alguns ex-colegas que têm filhos que estudam no João, como a Camila Farina, Lucas Cecin, Roberta Sirângelo, Carolina Migliavacca, a Paola Carrilho, que trabalha no audiovisual e estudava um ano abaixo de mim, e o Guilherme Toniolo.”

E não foram só as pessoas que marcaram sua trajetória escolar. Os eventos do João XXIII também deixaram suas marcas: a gincana, as olimpíadas e a Festa Junina eram ansiosamente esperadas por ele.

“Até a 4ª série eu muito bom no futebol, mas não cheguei a competir. Mas já velejava desde os 8 anos. Ainda hoje eu velejo e compito com o barco Ilca, antigo Laser. E o mais curioso é que alguns estudantes do Colégio, como a Antonela Dalpiaz, Ana Carolina Roth (ex-estudante do Colégio) e o pai dela, também ex-estudante do Colégio), competem comigo. Essa conexão é muito legal. Eu venho trazer meus filhos e encontro os alunos que competem comigo. São momentos que só o João XXIII proporciona”.

Quando ele saiu do Colégio em dezembro de 1999, prestou vestibular para administração na UFRGS, PUCRS e UniRitter. Inicialmente não passou. Um tempo depois, saiu a nova lista da UniRitter com a aprovação dele na 1ª turma do curso de Administração.

“No João XXIII tu não precisa ser o melhor, eles tiram de ti o que tu tem de bom e te incentivam a estudar. O Colégio me preparou para a vida, me passou valores, respeitou quem eu era, mesmo com as minhas dificuldades. O que sou hoje, devo ao João XXIII.”

Enquanto cursava a graduação, nosso ex-estudante trabalhava com o pai dele. Então, muita coisa aprendia nas aulas, ele já praticava diariamente. Ele diz que tinha prazer em trabalhar e adorava negociar. Em 2015, após visitar uma feira de máquinas em São Paulo, decidiu pesquisar sobre uma máquina que torrava o cacau e fazia o chocolate desde a amêndoa até a barra. De acordo com o André, esse processo é chamado de Bean to bar* e pouca gente conhecia naquela época.

“Ali foi o início de tudo. Ia pra Bahia comprar cacau direto do fazendeiro e trazia para Porto Alegre. Aqui eu torrava o cacau no forno da cozinha e os colocava dentro de um saco plástico para quebrá-los com um rolo de pizza. Depois, separava as cascas das amêndoas com um secador de cabelo. O processo era muito artesanal e começou como um hobby, com uma produção pequena porque ainda trabalhava com meu pai.”

Ao perceber que o hobby poderia ser sua principal fonte de renda, resolveu oficializar sua fábrica de chocolates, a Magian Cacao. Seus primeiros clientes foram os amigos, chefes de cozinha como o Vicco, ex-colega de João e que também participou da série Por onde anda… e o ex-estudante e filho do professor de educação física Alfredo Amaral, o chefe Pedro Amaral, dono do restaurante Nômade na Praia do Rosa em Santa Catarina.

Como o André tinha o objetivo de entregar um produto de qualidade e diferenciado, foi buscar cacau nos melhores produtores da Bahia. Hoje ele vende chocolate para empórios, restaurantes e cafeterias como Café do Mercado, Baden Torrefação, Banca 43, Banca do Holandês, Restaurante Capincho, Bottega Maria, Takêdo, entre outros.

“O João contribuiu para que eu tivesse as relações que tenho hoje. Essas conexões de trabalho são muito legais. Eu tenho um ex-colega do 2º grau que se chama Guilherme Toniolo, que é tio do colega do meu filho. Além dele velejar comigo, é engenheiro e está fazendo a minha fábrica nova, no terreno que comprei na rua nos fundos da minha casa. Está tudo interligado, família, amizades, trabalho, esporte, viagens. Hoje consigo conectar a empresa com o que mais gosto que é viajar, de velejar e surfar. Então quando viajo, levo a família.”

As viagens normalmente são culturais, gastronômicas e históricas, de acordo com o André. No final de 2024, a família foi de carro para Paraty e no caminho pararam em Ilha Bela para conhecerem um produtor de chocolate. Depois se hospedaram num hotel-fazenda, com plantação de cacau e que faz o processo completo de fabricação.

“As crianças viajam de férias e já vão entendo e tomando gosto pelo mundo do chocolate. Eles vão construindo uma história. Igual à que tive, iniciada pelo meu avô. E eu quero que eles também construam a história deles.”

Assim como orienta seus filhos, ele deixa um recado para os demais estudantes:

“Aproveitem tudo que o Colégio oferece e vivam tudo que puderem! Participem das gincanas, dos eventos, dos clubes e das atividades artísticas. Vivam o Colégio ao máximo. Façam amizades! Tenham boas relações com os professores. É uma formação educacional que vocês vão levar para vida. E, se puderem, trabalhem com alguma coisa bacana e que façam vocês felizes. Eu gosto do que faço. Amo trabalhar com chocolate. Tem dias que nem consigo sair da loja para almoçar, porque sempre tem um amigo ou conhecido que chega e eu quero atender e conversar. Tenho prazer em atender e receber as pessoas, em fazer chocolate.”

* Bean to bar é um movimento artesanal de fabricação de chocolate onde o mesmo produtor controla todas as etapas, desde a compra e torra dos grãos de cacau até a moldagem da barra final, valorizando a origem, qualidade e sustentabilidade do cacau, resultando em chocolates com sabores únicos e autênticos, muito diferentes dos industriais.

Por Renata Lages A. Eberhardt