Por onde anda…

… o ex-estudante João Gomes Ilha

O ex-estudante João Ilha tem andado pelas montanhas geladas coletando amostras de gelo para sua pesquisa de doutorado. Atualmente, ele é bolsista na Universidade de Veneza, universidade pública italiana, conhecida também como Università Ca’ Foscari.

Antes de pesquisar sobre ciências polares e escalar montanhas, ele percorreu um caminho de descobertas no Colégio João XXIII. A trajetória escolar iniciou juntamente com a sua irmã, em 2005 quando ele entrou no 4º e ela no 1º ano do Ensino Fundamental.

Ele lembra que quando chegou no Colégio foi bem recebido pelos colegas e logo fez amizades, as quais mantêm até hoje. Mesmo com os remanejos nas turmas no decorrer dos anos, o grupo de amigos se manteve unido e engajado em tudo que acontecia. Ele também ficou surpreso com as aulas de música, porque da escola de onde vinha, não tinha.

“Tínhamos uma tradição que era vir todos os ano na festa junina. Um outro evento que eu gostei de ter participado e que era organizado pelo colégio era o Dez a Dez, gincana de conhecimentos gerais, que envolviam gastronomia, história de Porto Alegre e atualidades. Além desses, o que me marcou foi a jornada dupla, quando a gente tinha um dia da semana com o turno inverso. Nesse dia sempre almoçávamos juntos na casa de algum colega e voltávamos para assistir aula. Era um dia que a gente saía da rotina e aproveitava pra se reunir.”

O ex-estudante relata que sempre gostou de vir pro Colégio e que mesmo depois das provas finais, ainda ficava para jogar bola, correr e conversar no meio das árvores. Ele diz que se sentia no meio de uma floresta e que era ótimo para descansar e conversar.

“Eu e meus colegas gostávamos de brincar de pega-pega no Colégio, isso foi do 5º ano ao Ensino Médio. Com o passar dos anos, fomos aperfeiçoando a brincadeira e ela ficando mais sofisticada. Na 2ª e 3ª série corríamos menos e subíamos em árvores, escalávamos as paredes. O pega-pega virou um jogo de estratégia e com menos correria. O nível de dificuldade foi aumentando conforme a gente foi crescendo. Apesar de algumas pessoas fazerem piada sobre isso, dizendo que erámos imaturos, não me arrependi de ter brincado. Hoje me orgulho de ter vivenciado isso e ter ficado as boas lembranças.”

Quando o João estudava no João, ele era uma pessoa fluída, que gostava música (fazia aulas de guitarra na Toque Musical), era estudioso, gostava de ler, de jogar nos computadores da informática, era bagunceiro e aprontava horrores, mas se dava bem com todo mundo e de vez em quando brigava com os professores. Inclusive muitos deles deixaram marcas, como o Rogério de história, o César de biologia, o Arthur de geografia, a Mara de português e a Rosane e da Ana Maestri de música.

“As aulas do César eram muito engraçadas, quase um stand up comedy. A Rosane foi minha primeira professora quando entrei no 4º ano e depois foi vice-diretora. Fiquei triste que depois do 6º ano não tinha mais aulas de música e acabei indo fazer na Toque Musical. E as aulas do Arthur me inspiraram a seguir nesse caminho da geociências.”

E ele passou no primeiro vestibular que fez quando saiu do Ensino Médio, para Geologia na Unisinos. Depois de cursar o 1º semestre, o João decidiu retomar os estudos e fazer novamente o vestibular, para o mesmo curso, na UFRGS em 2013.

“As aulas de geologia aconteciam no Campus do Vale, na Agronomia. E o Campus, me lembrava muito o João XXIII por causa dos prédios horizontais e da imensidão de árvores e contato com a natureza.”

No meio da graduação, ele fez um mochilão com a namorada pela América do Sul, indo de ônibus até Montevidéu, pegando carona para ir ao Ushuaia, Chile, Bolívia e Peru. Eles também atravessaram a Amazônia de barco. Depois desses meses viajando, voltaram recarregados e ele com muitas ideias para o TCC. Ele explica que nos dois anos finais de curso, precisa fazer o TCC e um mapeamento geológico, que é uma disciplina que dura um ano e é intensa, porque a os estudantes vão a campo fazer pesquisa.

“Nesses dois anos finais da graduação eu fiz estágio numa empresa de geologia ambiental aqui em Porto Alegre e outro em Novo Hamburgo. Nesse último eu percebi que não tinha interesse em trabalhar com essas questões burocráticas em geologia ambiental. Eu queria aprofundar meus estudos. Após a formatura descobri um grupo de pesquisa em ciência polar na UFRGS e resolvi aplicar para o mestrado e acabei passando em 1º lugar.”

Como pesquisador CNPQ no mestrado da UFRGS, ele estudou o gelo da Antártica e aos poucos foi entrando nesse mundo das ciências polares. Depois de defendida a dissertação, ele aplicou para o doutorado e passou em 2º lugar na UFRGS. Após um ano de doutorado ele realizou um trabalho de campo numa montanha nos Andes para coletar gelo, a 5600 metros de altitude. Porém, não foi possível fazer as análises nesse material coletado, porque não tinha pessoal e laboratórios para fazer a pesquisa aqui. Por esse motivo, começaram a desenvolver uma cooperação com a Itália e os Estados Unidos e ele aplicou para o doutorado na Itália e passou na Universidade de Veneza, que é sede do Istituto di Scienze Polari (Instituto de Ciências Polares do Conselho Nacional de Pesquisas da Itália).

“O João XXIII tinha esse espaço para a curiosidade e para a busca de do que se quer, sem seguir um padrão. Que existem coisas além da tua bolha e que lá fora tem muito para se conhecer. Como sempre fui muito curioso e estimulado pelo Colégio, fui buscar um doutorado fora do comum e num lugar diferente. Sempre tive esse fogo dentro de mim de buscar o que quero. Fui para lá e levei minhas amostras. Com a bolsa de pesquisa consigo me manter e viver tranquilamente. Pago minhas contas e ainda consigo fazer uma viagem e guardar algum dinheiro no final do mês.”

Ele nos conta que durante o doutorado teve a oportunidade de viajar para áreas glaciares da Suíça, Itália, Estados Unidos, Dinamarca, Noruega e para o Ártico. E que o Colégio teve grande influência na vida dele em relação ao senso de comunidade, de criar relações e de estar no meio da natureza.

“Éramos uma comunidade aqui no João e isso contribuiu para que eu criasse laços, os quais eu levo até hoje. Esse senso de comunidade me ajudou a ser a pessoa que sou hoje. Porque quando mudei de cidade, tive que estabelecer uma nova comunidade em outro país.”

De volta à comunidade do Colégio João XXIII para dar a entrevista e revisitar espaços e pessoas de um passado nem tão distante, muitas memórias surgiram. E o nosso ex-estudante relata o que sentiu ao passar pela portaria:

“Quando entrei percebi que tinham coisas diferente e ao mesmo tempo tão iguais de quando estudei aqui. Fiquei muito feliz em ver os alunos estudando fora da sala de aula, ao ar livre. Eu fui olhando para tudo ao meu redor e as memórias foram vindo como gavetinhas que se abriam conforme eu ia sentindo. Quando vi a quadra verde, lembrei de quando a gente jogava bola ali, daquele prédio na entrada que era menor e com uma lojinha pequena. Lembro da Tina e o seu famoso chá que curava tudo. A Lu que é muito querida. Da árvore de ameixa que tinha ali perto da quadra de piche. Eu e meu amigo subíamos nela todos os dias no recreio e pegava as ameixas. Era nosso QG. A gente se sentia meio dono do colégio.”

Após esse despertar de sentimentos e memórias tão significativas, o João finalizou a entrevista deixando um recado para os estudantes:

“Reclamávamos do tempo que passávamos no colégio. Depois que a gente sai, percebe que esse tempo foi precioso, importante e muito bom. Hoje percebo que eu aproveitei muito esse tempo e as oportunidades. Portanto, aproveitem ao máximo tudo que puderem, porque o tempo passa e ficam as boas lembranças.”

Por Renata Lages A. Eberhardt