… a ex-estudante Luiza Toniolo
Atualmente a Luiza mora e trabalha em terras Portuguesas. Ela é docente assistente convidada na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, onde leciona História do Direito. Além disso, trabalha no escritório de advogados chamado PLMJ.
Nossa ex-estudante não imaginava tudo que estava por vir ao entrar na Educação Infantil do Colégio João XXIII, em 2007, quando ingressou com 5 anos nos níveis multi-idade, com a professora Andreia e nem o que estaria fazendo quase 20 anos depois, morando e trabalhando em outro país.
“Antes de entrar no João, eu já frequentava diariamente a escola, pois levava o meu irmão com a minha mãe até à sala de aula nos anos iniciais. Além disso, as professoras Bete, Márcia e Rosângela diziam que estavam me esperando na escola. Eu estava ansiosa para esse dia chegar logo. Quando finalmente entrei na Educação Infantil, em 2007, tive a sorte de ser o primeiro ano das salas novas, tudo era bonito, e todos queriam conhecer essa nova parte da escola”, relembra Luiza.
Junto com ela vieram colegas da outra escolinha, o Luís Eduardo, Vicente Seewald, o Dante Vescovi e a Carolina Nocchi, que entro no 1º ano do Ensino Fundamental (EF) e continua amiga da Luiza até hoje.
Ainda nos níveis, ela recorda do dia em que todos puderam levar seus animais de estimação para o Colégio e ela levou seu cachorro, um Pastor Alemão. De acordo com a Luiza, esse dia foi muito especial e divertido. Ela destaca também que foi uma criança muito feliz no João. Gostava de andar de balanço, pintar, correr, estar junto à natureza e de explorar todos os cantos do Colégio, principalmente as duas casinhas perto do Campão. Sonhava em entrar no 1º ano do EF para aprender a ler e a escrever.
“Comprei o material e as minhas primeiras canetas esferográficas. A professora Márcia foi quem nos acolheu no 1º ano. Era um novo mundo. Me sentia muito grande! O Colégio permitiu que eu fosse a criança mais feliz possível, mais livre e instigada a descobrir. Eu cresci junto com o João XXIII e ele fez eu me sentir confiante para saber quem eu sou e do que sou capaz. Me ensinou que há muito mais na vida para além de aprender e reproduzir, que podemos refletir, criar e sentir”.
Ela ainda destaca que as aulas de artes e de música foram marcantes, assim como o som do chocalho que ela nunca esqueceu e o espaço de liberdade nas aulas de artes no Colégio João XXIII. Essas vivências contribuíram para que ela se tornasse uma pessoa confiante, apaixonada pela natureza e sensível para as artes.
“As aulas de música com a professora Ana Maestri nos ensinavam mais que música, ensináva-nos cultura. Aprendi a tocar flauta com ela e, apesar de não ser muito boa, hoje em dia valorizo os ensinamentos que tive. Depois, com o professor Marcelo, também de música, tivemos uma formação bastante densa em teoria musical e, de novo, em cultura da música brasileira. Sou muito grata a isso, especialmente porque deixei o Brasil com 16 anos e, uma forma de me conectar com o meu país e com a minha cultura é através da música.”
Além de ser engajada nas aulas, a Luiza era muito participativa em todas as atividades e eventos do Colégio, como a mostra cultural, gincana, festa junina e as saídas de estudos, principalmente a que fez no 3º ano do EF para as Missões.
“Gostava da feira do livro, da mostra cultural e de quando tínhamos encontros com os autores na biblioteca. Os aniversários do Colégio eram muito especiais e lembro de quando fizeram um álbum de figurinhas sobre a história do João XXIII. Eu adorava as festas juninas, porque era o momento de encontros e de brincadeiras. As festas sempre reuniam as pessoas do João, num ambiente familiar e acolhedor. O coração do João sempre tinha espaço para mais um”, Luiza recorda com carinho.
Ainda sobre as lembranças do EF, ela nos conta que teve aulas pelo pátio do Colégio, próximo à quadra e do pátio dos fundos, nos banquinhos de madeira. No 5º ano ela percebeu que estava entrando numa outra fase e no 6º ano pediu para trocar de turma. Foi nessa nova turma que ela conheceu as amigas Beta Schmidt, Ana Laura Leão Raldi, Ana Luísa Oliveira, Mirela Müller e a Marina Buzzetto. A Luiza conta que elas eram inseparáveis. Entre os meninos, ela destaca João Pedro Vivian, Cássio Fonseca, João Vitor Dubal e Antônio Meneghetti, seus grandes amigos. Sempre que volta ao Brasil, faz questão de tentar encontrar todos.
Entre os profissionais e professores ela lembra com carinho da Tina com os chazinhos e cobrança de uniforme, do Bira, da Ivone, da Cida, dos professores de inglês Matheus e Edda, do professor de matemática Cássio, do professor de história Rogério, que imitava os personagens da história mais memoráveis e da Rosângela, sua professora no 2º do EF e por quem tem um carinho imenso e que lhe ensinou a escrever com letra cursiva. Ela reforça que eles foram formadores maravilhosos.
“Entre o 6º e 9º ano tive professores que me marcaram e foram grandes inspirações. O Cássio, de matemática, com um humor e forma de ensinar incríveis, sem nos obrigar a decorar a fórmula de Bhaskara e por nos mostrar que podemos chegar ao mesmo resultado da equação por diferentes caminhos. E eu sempre achei isso incrível no João. Nos permitiam chegar no mesmo resultado (ou equivalente) através de caminhos diversos, sem problemas ou julgamentos. E isso carrego para o meu trabalho, na forma como trato as pessoas ou com os meus alunos, devolvendo a compreensão que tive: se eu posso facilitar, porque não? Se eu posso reduzir a formalidade, mas ainda ter respeito, porque não?”, ressalta nossa ex-estudante.
O Colégio João XXIII ajudaram-na a sonhar grande, sonhar alto. Tanto que na 1ª série do Ensino Médio (EM), em 2018, a Luiza foi, juntamente com a família, morar em Portugal, onde cursou o “secundário”, o equivalente ao EM no Brasil. A adaptação à nova escrita, nova cultura e o distanciamento da família fizeram parte do aprendizado. Hoje ela vive sozinha no exterior.
“A minha família sempre gostou de explorar o mundo e as oportunidades. Fui influenciada por esse modo de viver e que também adoro. Sinto muita saudade deles. Mas por outro lado, gosto muito das vivências que tenho aqui: viagens, conexões com pessoas de diversas nacionalidades, culturas e idiomas diferentes. Fiz amigos e estou construindo, aqui na cidade do Porto, a minha história.”
Ao final do terceiro ano do colégio, Luiza foi premiada com honra ao mérito pelos bons resultados, o que lhe ajudou a conquistar uma vaga na universidade. Lá o sistema de ingresso é diferente. Ela explica que leva-se em consideração o desempenho e a média das notas do ensino médio, assim como a nota do exame nacional (equivalente ao ENEM, mas com matérias específicas para cada curso da Faculdade). No caso dela, foi para português e história, disciplinas exigidas para o curso de Direito. A premiação também ajudou na conquista da tão disputada vaga. Aprovada, ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, onde se formou em 2021 e onde também cursou e concluiu a Licenciatura em 2025.
Durante a graduação, Luiza fez um intercâmbio para Berlim, onde morou por 8 meses, devido ao sistema de intercâmbio que a União Europeia oferece, o “Programa Erasmus+”. Ela se candidatou para uma vaga em Berlim, na Juristische Fakultät da Humboldt-Universität e foi aceita.
“Morei lá para estudar direito e consolidar a língua alemã. Na universidade tive aulas em inglês, alemão e francês. Foi uma experiência incrível e meus amigos sempre iam me visitar. A graduação foi um lindo período na minha vida. Viajei, estudei, me senti bem onde estava. Percebi que aquele lugar era meu também e que havia espaçado para mim.”
Nossa ex-estudante fez novas amizades e cultivou as do passado. Na universidade se encantou pelo meio acadêmico e pelos estudos em direito, o que lhe rendeu o prémio de incentivo, por ter tido a melhor média de notas do primeiro ano. Devido ao bom desempenho, ao sair da faculdade ela foi convidada para lecionar como professora assistente nas disciplinas de História do Direito e Direito Penal.
“Adoro dar aulas, e era um sonho meu ser professora. O meu avô foi professor catedrático de Direito Processual na URFGS, e tenho muito orgulho em carregar o direito no meu percurso. Para mim, também é essencial acolher alunos de outros países lusófonos (Angola, Macau, Timor-leste, Moçambique), imigrantes em Portugal”, relata Luiza.
Paralelamente à docência, ela iniciou a carreira jurídica num dos maiores escritórios de advogados em Portugal. Ela integra a área de Corporate M&A e Private Equity. E ressalta que o trabalho é desafiador, mas que aprende diariamente com pessoas brilhantes, humanas e gentis. E que elas a fazem lembrar das pessoas que trabalhavam no João.
“O papel do Colégio João XXIII foi de me ensinar aquilo que só na infância e juventude se ensina. Um jeito lírico de olhar para as coisas, o saber visualizar mais de uma hipótese para chegar ao caminho pretendido, a positividade e a leveza com que se olha para o mundo. Carrego todos esses valores diariamente tentando aliviar o peso e a ter confiança para enfrentar os desafios que me parecem impossíveis, em meio aos meus dias longos e estressantes. O João me deu essa força e os alicerces necessários para isso”, reflete Luiza.
Em 2023, ela retornou ao Colégio para falar sobre Portugal para a turma da professora Berenice, na qual estudava sua prima, Alice Toniolo. Ela relata que foi uma experiência única. Sobre as escolhas profissionais, ela diz que as vezes a ajuda e o suporte dos familiares e do Colégio, apesar de maravilhosos, não são suficientes. Que é preciso conversar com profissionais da área de interesse, para entenderem como é a rotina de trabalho para que tenham condições de analisar se determinada profissão será a melhor escolha.
“Falem com o máximo possível de profissionais das áreas nas quais tenham interesse e vejam como são as suas vidas, para que consigam se imaginar nestas profissões. E, lembrem-se também que na maioria das vezes o primeiro emprego não é aquele com o qual a gente sonhou, mas os próximos estarão cada vez mais perto disso. A experiência e o conhecimento virão com o tempo. Aproveitem as oportunidades no Colégio e na vida acadêmica, porque são fases de descobertas e de desenvolvimento intelectual”, reforça Luiza.
Ela ainda deixa um recado para os estudantes do João XXIII:
“Lembrem-se que escolher um caminho e depois alterar a rota faz parte da vida. Sejam realistas e sonhadores ao mesmo tempo. Sonhem, mas acordem cedo para realizá-los. O mundo não é tão livre e compreensivo como é no João, que nos proporciona espaços saudáveis para criar e nos faz sentir forte, feliz e unido. Batalhem para construir espaços como esses no futuro. E eu espero que um dia o mundo seja tão compreensivo e humano como foi o João XXIII na minha trajetória escolar.”
Por Renata Lages A. Eberhardt
