… o ex-estudante Vicente Crocco Sellins
Atualmente, o ex-estudante Vicente Crocco Sellins, mais conhecido como Vico Crocco, é chefe de cozinha, trabalha e mora em 3 lugares diferentes: no Balneário Buenos Aires no Uruguai, em Berlim na Alemanha e em Porto Alegre no Rio Grande do Sul. Aqui na capital e no Uruguai ele mantêm cozinhas estruturadas para atender eventos privados e empresariais, com pratos e menus personalizados. Ele passa a maior parte do tempo morando no Uruguai, onde tem uma casa e ao lado o Crocco Studio Design. Esse mesmo formato se repete em Porto Alegre.
“Eu gosto da minha liberdade. Tanto que não tenho uma casa, eu tenho três. Aqui tem a casa da minha mãe, o ateliê dela, a minha cozinha e a minha casa. Fico o verão europeu na Alemanha e no Uruguai fico entre o mês de novembro e a Páscoa. Faço private chef* e eventos nos quais sou convidado a fazer parte. Gosto dessa liberdade de criação. Meus pratos nunca se repetem. O cardápio que eu monto para um evento, não vai se repetir em outro. No máximo, pego alguns componentes de um menu para aplicar em outro”, afirma Vico.
Essa criatividade teve início ainda na infância quando ele entrou no maternal da escola Creare, da Margit Steiner, esposa do Frederico Lamachia – um dos fundadores do Colégio João XXIII. Esse foi o início de um vínculo que se mantém até hoje. A mãe do Vico é artista plástica e tinha essa preocupação com uma educação voltada para atividades manuais, artísticas, artesanais e no desenvolvimento de outras habilidades que não as usuais. Por esse motivo, ela o colocou na Creare e depois no João XXIII.
Sua mãe, Heloísa Crocco, era professora de artes do Colégio e por isso matriculou seus filhos no João. Vico entrou no jardim de infância e era muito artístico. Tocou flauta até o 8º ano e participou do Festival da Canção Francesa (porque fazia aulas de francês no Colégio) e dos Festivais de Música.
“O João XXIII contribuiu para me tornar o que sou hoje, com essa questão mais artística e de criatividade. O João te dá muita liberdade para ser quem tu realmente é, de expressão, de te posicionar, e que a tua palavra, mesmo que pequena e de um adolescente, vale. O estudante do João aprende a usar a cabeça, a pensar, ser uma pessoa do bem. Tudo era muito conversado, tinha acolhida e sermão quando necessário”, destaca Vico.
Nosso ex-estudante lembra com carinho da “tia” Mara do pré, a “tia” Karen Schuler da 1ª série do Ensino Fundamental, com as quais mantém uma relação de carinho e admiração. Eles conversam através das redes sociais. Outra professora que ele convive é Mara de português, porque é sua vizinha aqui em Porto Alegre e o Amaral de educação física.
“A Karen marcou muito minha infância aqui no João e a minha vida. A relação que tenho hoje com os professores é de muito carinho. Assim como tenho com meus ex-colegas. A maioria é meu amigo até hoje, como a Helena Rizzo, famosa chefe de cozinha (a mãe dela foi minha professora de artes aqui no João), o Pedrão, filho da Carla Hunsche. Sempre tive essa ligação com as pessoas. Apesar de chato, era muito querido por todos. Hoje sou amigo do André e na época nem nos falávamos. Atualmente ele é pai do Colégio e tem uma fábrica de chocolates, que fica ao lado do Ateliê da minha mãe na zona sul”, nos conta Vico.
O Vico era muito engajado nas atividades do João XXIII, como a Festa Junina, as gincanas, os festivais, as olimpíadas, apesar de não gostar tanto de esportes e a Festa das Tintas, que ele e os colegas esperaram ansiosamente para poder pintar o muro.
Outra experiência que ele viveu, ocorreu durante o 2º grau, quando tinha 16 anos e fez um intercâmbio para os Estados Unidos, onde ficou na casa de uma família americana, com a qual mantém contato. Inclusive, acabou de retornar de lá após uma visita aos pais e irmãos americanos.
“Essa coisa de família, de querer estar junto, de respeito e união, eu aprendi no João XXIII. Na época que fiz o intercâmbio, eles queriam que eu ficasse lá até terminar o College. Mas eu decidi que não. Então voltei ao Brasil e concluí o 2º grau.”
Após sair do Colégio, Vico fez vestibular na PUCRS, passou e cursou por 3 meses a graduação, porque sabia que não ficaria no Brasil. Como gostava de viajar, pretendia morar no exterior.
Com 18 anos, passaporte alemão e a vontade de estudar uma nova língua, decidiu ir para Alemanha cursar engenharia. Lá, precisou fazer mais um ano do 2º grau, porque o sistema de ensino é diferente. Para se sustentar, trabalhou como lavador de pratos, garçom e auxiliar de cozinha. Após cursar 2 anos de engenharia mecânica, percebeu que não era o queria. Foi para gastronomia e fez curso técnico. Antes de tomar essa decisão, conversou por um longo tempo com o diretor da faculdade de engenharia em Munique, para entender se o caminho seria a hotelaria, administração, engenharia de alimentos ou nutrição. Ou ainda um curso técnico de gastronomia, que foi sua escolha final.
“Tive essa coragem de mudar porque o Colégio me ensinou sobre a vida, a ser cidadão íntegro e a ir atrás dos meus sonhos. Tanto que fui morar na Alemanha, sem saber uma palavra em alemão, apenas com a vontade de estudar engenharia. Foi nesse momento que deixei de ser adolescente para me tornar adulto. Amadureci e tive coragem para encarar os desafios e saber lidar com as pessoas.”
Durante o curso técnico não era possível trabalhar e o valor mensal que ganhava do governo para pagar o chefe com o qual ele tinha escolhido para aprender, não era suficiente para se manter.
“Trabalhei com o chefe Harald Russel do restaurante Landhaus st Urban, como aprendiz. Cursei o técnico na escola que ele criou, chamada Escola JRE Akademie. Eu ficava hospedado em alojamentos com aprendizes de vários restaurantes da Alemanha. Foram 3 anos fazendo pela manhã o padrão do Governo e de tarde as aulas privadas específicas com os próprios chefes, donos das escolas.”
O Vico nos explica que depois de formado é necessário pagar o custo da escola ao chefe ou permanecer no grupo trabalhando para pagar o tempo de aprendizado. Ele trabalhou durante 1 ano nesse grupo, o qual era composto por 300 chefes, donos das escolas de gastronomia.
Após morar e trabalhar por 12 anos na Alemanha, retornou ao Brasil. Hoje, com 44 anos, percebe o quanto o caminho foi longo, mas valeu cada momento que viveu. Ele conseguiu unir a gastronomia às viagens. Apesar de ainda não ter cozinha na Alemanha, ela serve de morada para facilitar o deslocamento para outros países, como África, Itália, França, Suíça e Estados Unidos, onde tem clientes.
E, ao retornar ao Colégio para dar essa entrevista, ele lembrou que adorava as árvores e que ao abrir a porta da sala de aula se sentia livre porque o corredor era na rua e não num prédio fechado. No João ele se sentia livre por estar em contato com a natureza. Ele e os amigos gostavam de ficar sentados embaixo das árvores, ao lado das escadas do prédio administrativo, hoje refeitório da Educação Infantil.
“Quando entrei, pensei: que bom estar aqui de novo, em casa. Ver o André, que foi meu colega, trazendo os filhos dele no Colégio, dá a sensação de que tudo continua igual. O João XXIII formou muita gente com pé no chão, criativa, com respeito ao outro. O mais legal são os laços que a gente criou, eu criei, nós criamos. Não só com os professores, mas com todos que trabalhavam aqui. Éramos como uma família.”
O chefe Vico Crocco deixa uma mensagem para os estudantes do João, em relação às oportunidades, caminhos e possibilidades:
“Não precisa decidir tudo correndo. É importante socializar, conhecer pessoas. Vai viajar, estudar, empreender, fazer um curso técnico, entender o que gosta. Muitas vezes a gente não sabe o que quer fazer com 18 anos e as vezes nem com 20 e nem com 30 anos. E, está tudo bem mudar de ideia, de rumo. Não tenham medo de mudar. Conversem com quem tem que conversar, com os pais, com pessoas da área, com quem possa ajudar de alguma forma. Aproveitem as oportunidades e sejam protagonistas das suas vidas!”
*Profissional de gastronomia contratado para cozinhar de forma exclusiva na casa ou local escolhido pelo cliente.
Por Renata Lages A. Eberhardt
