19 de abril e a oralidade como memória viva

Em um momento de reflexão e questionamento, Fabiana Souza, contadora de histórias do Colégio João XXIII, propõe que “é preciso mudar, a começar pela data”.

“É preciso adiar o fim do mundo para contar mais história” (Ailton Krenak).

Estudei e cresci em uma sociedade que me deseducou em relação aos povos originários. Na escola, dia 19 de abril era o dia de pintar o “índio” e seu cocar, sua oca, ouvir “vamos brincar de índio” e tantas outras coisas extremamente preconceituosas e estereotipadas em relação aos indígenas. Só adulta fui me deparar com a realidade dos povos originários e o quanto não sabia nada sobre eles. Com a lei 11.645, de 2008, a temática indígena se tornou obrigatória, e os professores e governos foram se atualizando através da compra de livros, cursos etc. Porém, ainda hoje, vemos muitas escolas falando sobre a temática indígena só no dia 19 de abril, e da mesma forma folclórica e preconceituosa de anos atrás. É preciso mudar, a começar pela data. Daniel Munduruku já comentou em algumas entrevistas e textos que o dia do “índio” deveria se chamar dia da diversidade indígena, pois índio é uma palavra inventada pelo homem branco e não contempla a diversidade dos nossos povos. Eles não são uma coisa só. Cada um tem sua cultura, seus costumes, seu modo de viver próprio…

No último censo, de 2010, os dados remetem a 817.963 mil indígenas, representando 305 diferentes etnias. Também foram registradas no país 274 línguas indígenas… tem como definir isso tudo em uma única palavra? Tem como reduzir isso tudo a “índio”?? O correto é povos originários, povos indígenas, pois assim reforçamos a identidade de cada povo. São Munduruku, Pankararu, Yanomami, Tikuna, Kayapó, e tantos outros… são diversos e de uma cultura milenar que precisa ser preservada.

No dicionário, há uma grande diferença entre as palavras índio e indígena. Indígena é o que define melhor, pois no seu significado diz: “povos que já habitavam um território não colonizado”. Portanto, dia 19 de abril temos que refletir e nos aprofundarmos cada vez mais na pluralidade desses povos. É necessário que as escolas se atualizem, estudem a diversidade dessas comunidades indígenas, como vivem, onde estão, sua cultura própria e única etc. É preciso desconstruir essa educação colonizadora, refletir e preservar essas culturas diversas. Temos que estudar mais, aproximar-nos, ouvir mais esses povos, e lutar para preservá-los ao máximo!

“Acho que educar é como catar piolho na cabeça de criança. É preciso ter confiança, perseverança e um certo despojamento. É preciso, também, conquistar a confiança de quem se quer educar para fazê-lo deitar no colo e ouvir histórias”, diz Daniel Munduruku no livro “Sobre piolhos e outros afagos” (Editora Palavra de Índio).

Uma das coisas que mais me encanta em relação aos indígenas é a maneira que eles se relacionam com a palavra. A palavra, seja escrita ou falada, é um elo que nos permite voltar às nossas raízes e entender nosso presente. Como contadora de histórias, acredito muito na força das palavras e no seu poder. Durante muito tempo, a cultura de muitos povos foi preservada através da oralidade. Ainda hoje os povos nativos têm o costume de sentarem-se, contarem e ouvirem histórias… Histórias que atravessaram o tempo foram transmitidas de geração em geração e permanecem vivas, ainda sendo contadas ou escritas, registradas em livros… Hoje temos uma diversidade de escritores indígenas que estão nos deixando uma herança ancestral de valor inestimável. Essas vozes ancestrais estão mais próximas de nós e podemos aproveitar, parar um pouco para ouvirmos e nos reconectarmos com nossos antepassados.

“Como diria Davi Yanomâni ‘Os brancos escrevem livros porque a cabeça deles é cheia de esquecimento’, mas os povos indígenas acreditam na memória” (Ailton Krenak):

Em primeira pessoa, Fabiana de Oliveira Souza.

Acompanhe a fala do Professor de História, Rogério Carriconde, sobre a pauta indígena:

Esse podcast é um projeto do Comitê de Satisfação e Qualificação da Fundação Educacional João XXIII.
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