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Felipe Flores, do João XXIII para a Embaixada do Brasil em Teerã.

Por Wesley Quevedo

Felipe Flores foi aluno da segunda geração do Colégio João XXIII, entre 1984 e 1989, e com certeza, trouxe lembranças que atravessaram todas essas décadas. Hoje, sua trajetória profissional o levou para diferentes lugares do mundo, incluindo a Embaixada do Brasil em Teerã, no Irã. 

Felipe conta que sua casa era um pouco distante da Escola. Na época, residia no bairro Guarujá, zona sul de Porto Alegre, mas o fato de seus primos mais velhos já estudarem no Colégio e a proposta pedagógica foram fatores decisivos para que ele e o irmão viessem estudar no João XXIII, onde ficou até o último ano do Ensino Fundamental. 

Formou-se em Direito pela UFRGS, em 1998, e foi aprovado no concurso para o Itamaraty em 2001. Em 2005, foi para o exterior, no Irã, onde ficou por cinco anos. Logo após, foi para Viena, na Áustria. Em 2013, foi para Seul, na Coreia do Sul. Em 2014, retornou ao Brasil para trabalhar na Vice-Presidência da República. Após o impeachment, passou a trabalhar na Presidência. Felipe também voltou para o Ministério das Relações Exteriores, cuidando da divisão entre Japão e Coreia. Em 2017, foi para Istambul, na Turquia, em 2021, para Bruxelas, na Bélgica. Em 2025, voltou para o Irã, onde se encontra até hoje. 

“As pessoas acham que a vida de diplomata é glamorosa, mas, nessa parte, sobretudo para os filhos e a família, é difícil. Costumo dizer que as pessoas normais não foram feitas para levar a vida que a gente leva, tem que ter uma vocação especial”, conta Felipe. 

O espírito de comunidade vivenciado durante os anos no João XXIII permanece na memória de Felipe Flores e, muitas vezes, ultrapassa os muros da Escola, influenciando caminhos e a forma como se relaciona com o mundo. Segundo ele, “o respeito ao próximo e a tolerância serviram de exemplo para o que não fazer com os outros, e a experiência no João XXIII me ajudou a pensar um pouco fora da caixa e encarar o mundo com mais flexibilidade”. 

Mais uma vez, um ex-aluno fala sobre a importância do Campão e como ele fez parte da trajetória de quem passou por aqui. “Todo mundo lembra do areião do Campão, como eram os jogos ali e como as turmas sonhavam com uma grama.” 

Naquela época, as Olimpíadas do João já tinham um grande destaque, e o futebol masculino possuía um status importante para os estudantes. A turma do Felipe sempre perdia nas partidas, mas as gurias da turma “lavavam a alma”, pois sempre saíam vencedoras.  

A Olimpíada de 1989, em comemoração aos 25 anos do Colégio, foi marcante. Antes das competições esportivas, os alunos realizavam uma abertura como se fosse um desfile de escola de samba. A turma do Felipe fez uma crítica radical para a época. Com a ajuda do professor de Português, Ricardo Silvestrin, trouxeram como proposta as mazelas do Brasil, com uma alusão ao desfile da Beija-Flor de 1989, “Ratos e Urubus”, de Joãozinho Trinta. 

“Cada um representava de um jeito, a pobreza, a violência, e eu botei uma roupa que era uma alegoria sobre a AIDS, como um modo de encarar a realidade. Na época, esse ato já era a cara do João.” 

Assim como em um dos mais populares desfiles da Marquês de Sapucaí, eles também terminaram a Olimpíada daquele ano em 2º lugar, perdendo para a turma rival, que fez um desfile sobre a Revolução Francesa. “Ficamos super injuriados, a nossa proposta era muito mais inovadora.” 

A partir do 5º ano, o João XXIII tinha um ensino de francês muito forte, e 1989 foi o ano em que se comemoraram os 200 anos da Revolução Francesa. “Talvez esse fator tenha sido decisivo para o resultado final.” 

Com o passar dos anos, os espaços continuaram sendo ampliados para o desenvolvimento dos jovens da época. A biblioteca originalmente ficava junto à direção, ao lado da caixa d’água. Com o aumento da Escola e a mudança da biblioteca, coisas boas aconteceram. “Esse período que eu passei aqui foi de grandes transformações, foi impactante pelo aumento das opções de livros e com um espaço maior para o pessoal estudar”, relata. 

Ao relembrar os anos vividos no João XXIII, ele destaca uma característica que, para ele, diferenciava o Colégio de outras instituições, a liberdade para refletir, fazer escolhas e descobrir os próprios caminhos. “Eu acho que o João destoava um pouco de outros Colégios, dava uma certa margem para as pessoas respirarem, refletirem e saberem o que elas queriam, isso é uma coisa positiva do Colégio.” 

Felipe encerra nos ensinando sobre escolhas, futuro e os limites de nós mesmos, em que passado e presente ajudam a definir o futuro. 

“Mais importante do que saber os seus talentos é saber suas fraquezas e as coisas para as quais não se tem vocação. Eu encontrei a vocação na carreira diplomática.”