Por onde anda…

… ex-estudante Antônia Weck Glashester

Atualmente a nossa ex-estudante Antônia está finalizando, aos 22 anos, seu primeiro livro de não ficção intitulado TDAH (Totalmente Doida, Ainda Humana). Além da literatura, a arte também está bem presente em sua rotina. Ela participa de feiras expondo seus trabalhos em aquarela e de artesanato. Formada em Tecnólogo em Produção de Multimídia pelo UniSenac Porto Alegre, pretende cursar Design na PUCRS no segundo semestre deste ano. Além disso, trabalha com a irmã Catarina (que também estudou no Colégio e participou da série Por onde anda), na empresa Bisin Assessoria de Comunicação e Marketing, na qual é responsável pela parte criativa, de design e identidade visual, enquanto a irmã realiza a cobertura de eventos, produção de conteúdo e planejamento das postagens nas redes sociais para os clientes.

Além desse bom relacionamento com a irmã, que se estendeu para os negócios, Antônia também mantinha relação com o Colégio João XXIII, antes mesmo de estudar lá. Sua avó, Maria Beatriz Glashester, foi professora de matemática na década de 80 no Colégio e o carinho e admiração que tinha pelo João XXIII se estendeu para suas netas, Catarina e Antônia. A história da Catarina foi contata no ano passado e da Antônia inicia na Classe-Bebê, passando pelos níveis e encerrando temporariamente no 1º ano do Ensino Fundamental (EF), quando saiu do Colégio. O retorno aconteceu no 9º ano, em 2018, permanecendo até a conclusão do Ensino Médio (EM).

“O João sempre foi minha casa, não tinha como eu não voltar. Aqui me senti incluída, respeitada e acolhida em todos os sentidos. Quando entrei na Educação Infantil não tinha noção sobre as coisas. A questão sobre a minha fala nunca foi um problema, tanto que não sofri bullying aqui no João”, relata Antônia.

A Antônia nasceu com a fenda palatina, mas com o lábio preservado. O diagnóstico foi tardio, próximo aos 5 anos, porque não tinha nada aparente. Ela fala que passou por incontáveis exames nos primeiros anos de vida, até chegar à cirurgia do palato.

“Nasci sem a estrutura do céu da boca e tive fazer a reconstrução. Foi uma cirurgia longa com mais de 4 horas de duração, na qual levei quase 100 pontos. Meu médico disse que foi a cirurgia mais difícil da vida dele.”

Antes da cirurgia ela balbuciava alguns sons e sílabas de palavras. Depois do procedimento cirúrgico, passou a fazer fonoaudiologia e aos poucos a fala foi melhorando. No percurso também descobriu que tinha 60 % de perda auditiva nos dois ouvidos e que atualmente teve uma melhora para 30% de perda.

“Não precisei usar aparelho auditivo. Os médicos disseram que ainda posso recuperar mais um pouco a audição e melhorar ainda mais a fala. Hoje consigo me comunicar bem, inclusive não tive problemas ao apresentar meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). No Colégio tinha mais vergonha de falar em público, hoje é mais tranquilo”, afirma Antônia.

Junto com a questão da fala e da audição, veio o diagnóstico do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), da Dislexia e Discalculia. Antônia foi diagnosticada aos 5 anos, quando ainda estava na Educação Infantil. Ela lembra que o apoio e carinho da Jussara Pacheco, atualmente auxiliar do Joãozinho Legal, foram fundamentais nessa etapa escolar.

“Quando a gente recebe um diagnóstico tudo parece fazer mais sentido. Eu lembro que no Ensino Fundamental eu lia e não entrava nada na minha cabeça. O TDAH é um transtorno que dificulta a vivência cotidiana. É muito importante não ter medo de pedir ajuda. Entendi que não tinha nada de errado contigo. Ter um diagnóstico e receber a ajuda do Colégio nesse processo foi fundamental para meu desenvolvimento escolar.”

No retorno ao Colégio, se sentiu novamente acolhida. O reencontro com professores e colegas foi emocionante e deixou marcas positivas para a Antônia.

“Quando voltei para o João, voltei com vários colegas de outro colégio e isso fez eu me sentir amparada. O suporte que tive aqui, não encontrei nos outros dois colégios que passei, foi impactante a mudança, inclusive as relações eram mais complicadas. Aqui sempre tive minhas limitações e necessidades respeitadas”, destaca Antônia.

A nossa ex-estudante destaca a ajuda que recebia dos colegas e amigos em relação às provas e trabalhos, que eram adaptados às necessidades e limites dela, assim como o suporte dos professores e monitores em sala de aula. Sua vó também teve um papel relevante no seu aprendizado.

“Por causa da dislexia eu não gostava de ler porque tinha muita dificuldade em entender o conteúdo e finalizar a leitura. Então, minha vó e eu tínhamos um combinado: ela lia 2 páginas do livro solicitado pelo Colégio e eu lia as outras duas. E assim a gente ia lendo até o final”, confidencia Antônia.

Nessa época, ela recorda que a diretora era a Márcia Valiati e a vice a professora Rosane, mãe da Helena que também estudou no Colégio. A Paula Poli, atual diretora, foi sua professora de química. A Antônia adorava as aulas dela, principalmente quando iam para o laboratório fazer experimentos. Além da Paula, a Cida, professora de matemática com quem tirou a primeira nota 9, a marcou pelo afeto, compreensão, paciência e cuidado com ela em sala.

Sobre o que mais gostava de fazer no Colégio, ela menciona a conversa com as amigas nos bancos verdes do Pátio Central, durante o recreio. Entre as amigas, estava a Ana Carolina Roth que veio para o João junto com a Antônia e que também participou da série Por onde anda. Antônia diz que nem via o tempo passar e que quando não ficavam nos bancos, iam para a pista de atletismo na entrada do Colégio para comerem bergamota e pegar sol no inverno.

Em relação às atividades e eventos do Colégio, ela participava das Festas Juninas, dos dias temáticos e a Festa das Tintas, evento mais esperado pelo Terceirão, que acontece uns dias antes da formatura do EM.

Eu fiz o primeiro ENEM em 2021 durante a pandemia. Lembro que não podia fechar as portas e nem ligar o ar condicionado. No ano seguinte fiz cursinho e a minha nota no ENEM melhorou. Em 2023, passei na UniSenac e me formei em agosto de 2025”, relata Antônia.

É claro, que antes de pensar em ENEM várias perguntas rondavam seus pensamentos. Quando não era a família questionando, era ela se perguntando o que iria fazer na vida, se faria ENEM, vestibular na UFRGS e para que curso faria. O tecnólogo não era sua primeira opção naquele momento, mas decidiu cursar e acabou gostando do curso.

“Apesar de não ser minha primeira opção, aprendi muitas coisas no curso. Agora vou me dedicar ao que sempre quis, Design. No 2º semestre desse ano vou entrar com Ingresso de Diplomado na PUCRS.”

A Antônia percebeu, ao entrar na faculdade, que é cada um por si e que a pressão fora do Colégio é bem maior. E isso foi um choque de realidade para ela. Sentiu falta do acolhimento que tinha no João. E mesmo com tudo isso, ela reflete e diz que foi tranquila a jornada acadêmica. Mas a vida dela não é tão tranquila assim. Ela confessa que gosta de fazer várias coisas ao mesmo, porque não consegue ficar parada e dessa forma se sente ocupada, mesmo que isso signifique não terminar o que começou. Inclusive, para concluir o tecnólogo foram anos de terapia e acompanhamento.

“Nesse ano vou lançar um livro no qual, além de escrever, ilustrei e diagramei, tudo isso em 8 meses, entre setembro de 2024 e maio de 2025. Minha ideia é lançar na Feira do Livro de Porto Alegre desse ano. Também vou presentear o Colégio com um exemplar porque o assunto se relaciona com TDAH e minhas vivências no João XXIII. Claro que será numa versão mais leve, mas que abordará a história da personagem que vive no mundo lua”, nos conta, em primeira mão, Antônia.

Ela antecipa que o livro trará 7 reinos (um para cada dia da semana), com histórias diferentes, porém reais, do que as pessoas com TDAH passam diariamente, retratando os desafios na resolução de conflitos e a falta de paciência para conclusão de atividades corriqueiras, tudo isso sem romantizar o tema.

“Eu quero que esse livro seja uma ferramenta de ajuda para quem tem TDAH e também para quem não tem. Para que as pessoas possam compreender como é o universo de quem tem TDAH. Na época do Colégio eu tinha muita vergonha de falar sobre TDAH e Dislexia. As pessoas sempre me perguntavam porque eu fazia prova em sala separada e usava calculadora em matemática. Esse livro ajuda de várias formas”, explica Antônia.

Além de estrear na literatura, Antônia segue trabalhando com a irmã, atendendo diversos clientes da área esportiva e no projeto social Instituto Bons Ventos, que tem apoio do governo. Em relação às amizades que floresceram no João XXIII, ela continua trocando experiências nos encontros da turma.

“Essas trocas me tornaram mais empática, assim como a inclusão. Sempre tive meu lugar de fala, no qual fui ouvida e acolhida. Era livre para me expressar e ser quem eu era, sem julgamentos. Já passei por tanta coisa e posso afirmar que se não fossem minhas amizades tudo teria sido mais complicado. Não deixem de pedir ajudar, não tenham vergonha do diagnóstico, seja ele qual for. Mesmo que por vezes a vida pareça desmoronar ou querer te derrubar, continue lutando. Com o apoio dos teus amigos, familiares e de pessoas que te acolhem fica mais fácil vencer qualquer coisa nessa vida. E nunca desistam dos seus sonhos, porque em algum momento vai dar certo”, finaliza nossa ex-estudante Antônia.

Por Renata Lages A. Eberhardt

Saiba mais sobre o Instituto Bons Ventos:

https://www.institutobonsventos.com

Leia a matéria com a Catarina Glashester (irmã Antônia):